Quis pintar um quadro perfeito.
Escolhi a tela, com tempo e com cuidado.
Escrevia a lápis e polia o bico com frequência: cada traço teria que ser exemplar!
Usava folha de rascunho e só depois, com papel vegetal, decalcava os feitos para a tela.
Fui desenhando, devagar.
Fui construindo uma encenação pensada. Cuidada. Bem calculada.
E assim foi, durante algum tempo...
Mas sou humana. Descuidei-me.
Justamente quando me preparava para lhe dar cor.
Para me comprometer.
Quando peguei no pincel para demarcar com tinta os traços que há meses esboçava...
O vento.
A mudança.
A imprevisibilidade.
É...não podemos controlar tudo.
E há sempre uma janela aberta!
...E assim o vento entrou.
De rompante, derramou uma lata de tinta na tela que era pra ser perfeita.
Entrei em pânico.
Fiquei em choque!
Chorei. Gritei. Rasguei-me por dentro e por fora.
Enfureci-me. Enchi-me de raiva e de rancor!
...
E a tela continuava ali, em cima da mesa. Esquecida.
A tinta seca. Os traços-que-eram-para-ser-perfeitos, sumidos. Apareciam só aqui ou ali, onde a tinta não havia chegado.
Os pincéis e os lápis-caros e as tintas e o papel vegetal, abandonados.
E depois. Só depois. Parei. E reparei.
Nada acontece por acaso.
...
Ainda atordoada, frustrada, voltei e pegar no pincel.
Revolvi a tinta ressequida. Pintei por cima. Sem ensaios. Sem projetos.
Adicionei cores ao acaso. Misturei tudo.
E, sem querer, fui dando forma áquele caos.
Não era um quadro de exposição.
Foi-se tornando uma coisa só minha, que ninguém entendia. E ainda bem!
Era um quadro confuso. Revolto. Livre.
De luta e de coragem.
De fé e de vontade. Sem regras. Sem propósito. Sem caminhos traçados.
Era um quadro de alma. Bravo. Doce. Autêntico.
Era um quadro de amor.
sábado, 3 de março de 2012
domingo, 25 de dezembro de 2011
25 de Dezembro
Nunca se esquece este dia.
E apesar de não ter necessariamente que ser um dia inesquecível, é-o, quase sempre.
E no fim de contas, não fizemos nada de especial; não batemos nenhum record mundial, nem fizemos a nossa viagem de sonho. Na verdade, o mais provavel é que nem tenhamos descalçado as pantufas.
Não é preciso ir longe ou querer em grande para se ter tudo o que se precisa.
...O dia de Natal pode repetir-se, refazer-se ano-após-ano, ser sempre igual, que a gente não esquece nenhum.
E, afinal, o que fica retratado na memória são as mesas fartas de sorrisos, os sofás superlotados de calor e de carinho, os fatos-de-pai-natal e os corações e os olhos e o corpo dos miúdos aos pulos, desesperados por rasgar embrulhos!
Não me lembro em que Natal recebi aquele relógio caro que tanto queria, nem do Santo-Natal em que a minha avó não deu bronca com a ementa...mas lembro-me ao pormenor das coisas mais banais, e é dessas que tenho saudades.
É exactamente por ser uma data tão inesquecível que o Natal tantas vezes se torna uma data tão detestável.
...O tempo altera as circunstâncias, mas altera sobretudo as pessoas e as suas vontades.
O tempo seca as flores. Leva-nos a juventude e a vida de entes-queridos.
É...O tempo tira. Mas também dá. E, às vezes, dá a dobrar.
Traz-nos novos sonhos. Novos anseios. Novos amores...novas vidas!
O problema não é o tempo. O problema é o que as pessoas escolhem fazer com ele.
O problema são as pessoas que preferem coleccionar cólera. Rancor. Tristeza. Penitência.
Eu prefiro coleccionar e fabricar recordações felizes.
E é por isso que neste Natal não me saem da cabeça o sorriso dos meus avós, os gritos dos miúdos pela casa, as aparições do pai-natal, o aconchego da lareira...
Porque não pude acumular recordações felizes, hoje recordei, triste e repetidamente, a alegria e a união que o tempo e as pessoas levaram.
Às vezes a vida também é feita de recordações felizes.
E ao menos essas já ninguém mas tira!
E apesar de não ter necessariamente que ser um dia inesquecível, é-o, quase sempre.
E no fim de contas, não fizemos nada de especial; não batemos nenhum record mundial, nem fizemos a nossa viagem de sonho. Na verdade, o mais provavel é que nem tenhamos descalçado as pantufas.
Não é preciso ir longe ou querer em grande para se ter tudo o que se precisa.
...O dia de Natal pode repetir-se, refazer-se ano-após-ano, ser sempre igual, que a gente não esquece nenhum.
E, afinal, o que fica retratado na memória são as mesas fartas de sorrisos, os sofás superlotados de calor e de carinho, os fatos-de-pai-natal e os corações e os olhos e o corpo dos miúdos aos pulos, desesperados por rasgar embrulhos!
Não me lembro em que Natal recebi aquele relógio caro que tanto queria, nem do Santo-Natal em que a minha avó não deu bronca com a ementa...mas lembro-me ao pormenor das coisas mais banais, e é dessas que tenho saudades.
É exactamente por ser uma data tão inesquecível que o Natal tantas vezes se torna uma data tão detestável.
...O tempo altera as circunstâncias, mas altera sobretudo as pessoas e as suas vontades.
O tempo seca as flores. Leva-nos a juventude e a vida de entes-queridos.
É...O tempo tira. Mas também dá. E, às vezes, dá a dobrar.
Traz-nos novos sonhos. Novos anseios. Novos amores...novas vidas!
O problema não é o tempo. O problema é o que as pessoas escolhem fazer com ele.
O problema são as pessoas que preferem coleccionar cólera. Rancor. Tristeza. Penitência.
Eu prefiro coleccionar e fabricar recordações felizes.
E é por isso que neste Natal não me saem da cabeça o sorriso dos meus avós, os gritos dos miúdos pela casa, as aparições do pai-natal, o aconchego da lareira...
Porque não pude acumular recordações felizes, hoje recordei, triste e repetidamente, a alegria e a união que o tempo e as pessoas levaram.
Às vezes a vida também é feita de recordações felizes.
E ao menos essas já ninguém mas tira!
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Esperei-te
Esperei-te na noite.
Mesmo de peito vazio. De olhos borrados e lágrimas secas, desfeitas no peito.
Esperei-te não para te abraçar, te amar e me perder em ti, como desejo.
Esperei-te foi para te ver rasgar a noite de desespero!
Para sentir o tremor na tua voz e no teu peito.
Para afastar à bruta o teu abraço e sentir, já sem querer, o teu perfume no ar.
Esperei-te para ler loucura no teu olhar.
Para te ouvir falar a chorar sobre os momentos que não consigo esquecer.
Esperei por um gesto que me dissesse o fundo de ti. Queria saber ao certo quem és!...
Sabendo que não vinhas esperei-te...para te ver morrer de amor por mim.
E tu, que sabes tanto de mim, que sabes que me afasto do mundo quando mais dele preciso...não vieste.
...E abandonas-me dizendo que lutas por mim.
Mesmo de peito vazio. De olhos borrados e lágrimas secas, desfeitas no peito.
Esperei-te não para te abraçar, te amar e me perder em ti, como desejo.
Esperei-te foi para te ver rasgar a noite de desespero!
Para sentir o tremor na tua voz e no teu peito.
Para afastar à bruta o teu abraço e sentir, já sem querer, o teu perfume no ar.
Esperei-te para ler loucura no teu olhar.
Para te ouvir falar a chorar sobre os momentos que não consigo esquecer.
Esperei por um gesto que me dissesse o fundo de ti. Queria saber ao certo quem és!...
Sabendo que não vinhas esperei-te...para te ver morrer de amor por mim.
E tu, que sabes tanto de mim, que sabes que me afasto do mundo quando mais dele preciso...não vieste.
...E abandonas-me dizendo que lutas por mim.
sábado, 9 de julho de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
Alegria & Felicidade
"A felicidade está para a alegria como uma lâmpada eléctrica está para o sol. A felicidade tem sempre um objecto, é-se feliz por alguma coisa, é um sentimento cuja existência depende do exterior. A alegria, pelo contrário, não tem objecto. Possui-nos sem qualquer razão aparente, no seu ser assemelha-se ao sol, arde graças à combustão do seu próprio coração."
sábado, 30 de outubro de 2010
só Tu
Chove.
E chove cá dentro, como lá fora.
Ouve-se o vento. Só.
A televisão está desligada, os livros dispostos na estante.
Coloco uma música, baixinho.
Calço as meias mais quentes e pego numa caneca de chá, que esfumaça pelo quarto.
Aconchego-me em mim mesma.
Perdida. Esquecida. Mas mais perto de mim.
Envolvo-me. Revolvo-me.
Encolho-me, pra me sentir livre.
Fecho os olhos. Penso em ti. Em como me prendi.
Tremo.
Se me faltares, falta-me o chão.
E temo.
Não planeei isto. Não escolhi amar-te. Aconteceu.
Foi de repente. Ou então não.
Acho que esperei por ti a vida inteira.
Imaginei-te, ainda antes de te conhecer.
Desenhei-te as qualidades. Escolhi-te os defeitos.
Eras tu. Sempre foste tu.
Por isso mesmo, não te consegui largar.
Risquei tudo. Mudei de planos. Mudei de vida. Quis escrever de novo.
Compensaste o risco. Cada dia. Cada minuto. Cada sorriso.
Dei-te a mão. Dei-te o corpo. Dei-te a alma. Dei-te tudo.
E tu devolves-me. Constróis-me. Todos os dias.
Mais brilhante, mais inteira, mais gigante.
E todos os dias, para poder voar, prendo-me mais um pouco.
Eu, que sempre me quis tão independente!
E isso assusta-me, sabes?
Destruíste-me as muralhas. Despiste-me as armaduras. Desarmaste-me.
Cuidaste de mim. E eu gostei.
Demasiado...
E chove cá dentro, como lá fora.
Ouve-se o vento. Só.
A televisão está desligada, os livros dispostos na estante.
Coloco uma música, baixinho.
Calço as meias mais quentes e pego numa caneca de chá, que esfumaça pelo quarto.
Aconchego-me em mim mesma.
Perdida. Esquecida. Mas mais perto de mim.
Envolvo-me. Revolvo-me.
Encolho-me, pra me sentir livre.
Fecho os olhos. Penso em ti. Em como me prendi.
Tremo.
Se me faltares, falta-me o chão.
E temo.
Não planeei isto. Não escolhi amar-te. Aconteceu.
Foi de repente. Ou então não.
Acho que esperei por ti a vida inteira.
Imaginei-te, ainda antes de te conhecer.
Desenhei-te as qualidades. Escolhi-te os defeitos.
Eras tu. Sempre foste tu.
Por isso mesmo, não te consegui largar.
Risquei tudo. Mudei de planos. Mudei de vida. Quis escrever de novo.
Compensaste o risco. Cada dia. Cada minuto. Cada sorriso.
Dei-te a mão. Dei-te o corpo. Dei-te a alma. Dei-te tudo.
E tu devolves-me. Constróis-me. Todos os dias.
Mais brilhante, mais inteira, mais gigante.
E todos os dias, para poder voar, prendo-me mais um pouco.
Eu, que sempre me quis tão independente!
E isso assusta-me, sabes?
Destruíste-me as muralhas. Despiste-me as armaduras. Desarmaste-me.
Cuidaste de mim. E eu gostei.
Demasiado...
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Como eu e tu.
Somos o avesso um do outro: iguais por fora, o contrário por dentro. Tu proteges-me, acalmas-me, ouves-me e ajudas-me a parar. Eu puxo por ti, sacudo-te e ajudo-te a avançar.
Como duas metades teimosas.
Como duas metades teimosas.
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