terça-feira, 8 de junho de 2010

O meu velho amigo Ferry

O Ferry era o meu cão, o meu irmão mais novo, o meu melhor companheiro e mais fiel amigo. E nunca precisámos de conversar. Às vezes, muito poucas, eu dizia-lhe duas ou três coisas que me preocupavam e ele respondia-me com um olhar ou um suspiro e eu percebia o que ele me queria dizer; que o mundo poder ser um lugar difícil, mas, se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós. E que o importante é não complicar, ter tempo para descansar e brincar, seja qual for a nossa idade ou profissão.
O Ferry ensinou-me a amar o silêncio e a respeitar o silêncio dos outros. Mas também me ensinou a atacar de forma letal os meus inimigos, a ser grato a quem me quer bem e a lamber as feridas longe dos outros.
Morreu envenenado e deixou um vazio na minha vida.
Nunca esquecemos aqueles que amamos, nunca deixamos de amar aqueles que nos amaram, nunca perdemos a sabedoria que nos legaram, nunca deixamos de ter saudades daqueles que mudaram a nossa vida.
E é por isso que quando escondes a cabeça abaixo do meu ombro direito e dizes em voz muito baixa e temperada, com riso e embaraço, que se calhar te estás a apaixonar por mim, fico calada para que me oiças melhor e penso que sou uma pessoa cheia de sorte.
O Ferry tinha razão; a vida nem sempre é fácil e o mundo pode ser um lugar vil e torpe onde há homens que têm prazer em mutilar crianças e envenenar cães, mas se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós.
E tu, já fazes parte da minha vida.

Margarida Rebelo Pinto

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Espaços

Não me interpretem mal.

Não é de arrependimento que venho falar-vos, tampouco de incertezas.

Falo-vos do vazio.
Dos espaços que, estando eternamente ocupados, por vezes nos ecoam na mente, como que para recordar que ali permanecem. Quietos. Imutáveis. Cimentados.

E os espaços - os do coração - são de quem são.
E nem mesmo quando os sentimentos que preenchem determinado espaço mudam, ele deixa de existir.
No coração não se troca de inclino.
No coração coleccionam-se as vivências e as recordações felizes.

O que nos chega ao coração, a gente tende a aprisionar.

E é assim, com corações cada vez mais esburacados, que vamos sendo felizes.
E embora um ou outro espaço esteja fisicamente vazio, eles estão prenhes de sonhos especiais:
Aqueles que já vivemos!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

E (novamente) depois?

- Depois, - diziam-me despreocupadamente, vezes sem conta - abres as asas e voas!
- Como se isso fosse assim tão fácil... - resmunguei - Será que não havia viv`alma capaz de compreender a minha agonia?

Parecia-me, de facto, um feito inalcançável: Como poderia a liberdade de um voo estar apenas à distância de um distender de asas?

Não. Não podia ser.

E as turbulências? E as tempestades? E o medo? E a solidão? E o desconhecido?

Será que não havia mais ninguém prudente à face da terra, além de mim mesma?

Bom, depois... a verdade é que, até hoje, não consigo entender que impulso me motivou.
Acordei, um dia, mais apagada e amarrada do que nunca. O Verão estava a chegar ao fim e parecia que até o tempo estava solidário comigo: tudo era cinzento.

Sentia-me como um passarinho depenado e sem graça, preso numa gaiola, para quem toda a beleza do mundo não passa de apenas uma miragem. Jamais poderia voar, jamais poderia respirar fundo e desfrutar, de facto, do paraíso que me reodeava.

Aconteceu de repente. Ou então não.

Confesso que, na altura, não foi por querer voar que me soltei.
A verdade é que continuava convencida de que isso era realmente impossível. Mas a oportunidade de correr de braços abertos para o vazio, sentindo só assim o vento a bater-me na cara e o cabelo a esvoaçar ao vento, pareceu-me completamente irresistível!

A gente às vezes, realmente, pensa demais!
E não é que não custou assim tanto?

Daí a experimentar os primeiros voos foi um instante!
Pois claro, ainda houve uns dias em que choraminguei, assim sem ninguém ver. Por mais que digam o contrário, não é de ânimo leve que se tiram os pés do chão e se ganha o hábito de viver sem a segurança que a terra firme nos transmite.

Reconheço que, até agora, os voos têm sido ainda instáveis, mas estou convencida que consigo apanhar o jeito!

Às vezes, quando ando lá bem alto por entre as nuvens, só consigo pensar: Será realmente preciso voltar a aterrar?

Engraçado...as voltas que a vida dá!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Saudade

Não é fácil permitirmo-nos sentir saudades de alguém.

Não quando é saudade a sério. Persistente. Caprichosa. Louca.

Sentir a falta, isso é espontâneo. A gente sente falta de ouvir uma canção, de ler um bom livro, ou da companhia de um velho amigo, mas não endoidecemos na sua ausência.

Sentir falta alimenta-nos. Elucida-nos: tendemos a valorizar o que está ausente ou incerto.

Mas a verdade é que, geralmente, só nos consentimos desejar aquilo que, embora distante, está perto o suficientemente para que o possamos alcançar.

Raras são as vezes em que somos corajosos ao ponto de ambicionar incansavelmente o impossível. Isso consome-nos. Isso paralisa-nos. Isso é saudade.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Tempo & Amor

"O tempo está para o amor como o vento para os incêndios. Apaga os fracos e ateia os fortes. É uma espécie de teste, uma prova cega, uma forma inequívoca de clarificar aquilo que tanto queremos chamar amor e que não é mais do que o minúsculo embrião de um futuro incerto e tantas vezes improvavél. Mas o amor está para o tempo como uma vela acesa ao luar, trémulo, impaciente, frágil, volúvel, fácil de acender e ainda mais fácil de apagar."
Margarida Rebelo Pinto

terça-feira, 9 de junho de 2009

Arco-Íris: ser ou não ser?

Hoje disseram-me umas verdades duras de roer.

Há coisas que a gente admira uma vida inteira, mas nunca se lembra de pensar sobre elas. Não tinha noção do quanto apreciava o arco-íris, até que hoje a professora de Técnica Vocal resolveu, já nem me lembro bem porquê, desfazer a crença de que aquele fenómeno se devia, se não a artes mágicas, então, no mínimo, a uma qualquer obra divina.

Não que alimentasse o sonho de desencantar um pote com moedas de ouro no final do arco-íris, mas há simplesmente coisas que uma pessoa prefere não saber!

Explicava ela, muito científica, que uma qualquer característica acústica ou harmónica ou whatever – nunca me hei-de familiarizar com estes termos - é como o arco-íris: pode ver-se mas, na realidade, não existe!

Fiquei de queixo caído, palavra!

Pode até ser burrice, mas estudei Humanidades, e à parte das áreas em que me inteirei por mera curiosidade, estas coisas da física são ainda – e temo que continuem a ser - um mundo por descobrir. Enquanto falava da impossibilidade de os cães o verem, já que os pobres coitados vêem a preto e branco – ao menos isso não me chocou, o mundo animal sempre me interessou - rematou com uma explicação relativa a um fenómeno óptico só observado pelos humanos, qualquer coisa relacionada com a dispersão da luz do sol que penetra numa gota de água e reflecte as cores num determinado ângulo, que também só poderão ser observadas a partir de uma determinada posição geográfica. Uff…!

É preciso muita coincidência!

E eu que estou sempre no mundo da lua, tinha que estar atenta justamente nesse instante.

Revejo-me agora naquelas pobres crianças cujos pais desde cedo teimam em explicar-lhes que o Pai Natal não existe coisa nenhuma, que isso é coisa para bebés! Pobres coitadas…

Eu cá recebi o Pai Natal lá em casa tantos anos quantos possível. Na altura ainda não se tinham lembrado de comercializar os fatos-de-pai-natal, pelo que o velhinho se fazia sempre apresentar com vestes que em muito se pareciam com mantas velhas. Mas eu reconhecia-o sempre! E com o misto de ansiedade e nervosismo que o momento suscitava, nunca me questionava porque é que nessa noite o meu avô ia sempre deitar-se mais cedo…e chegava precisamente meia dúzia de minutos depois do velho das barbas ter saído.

Como digo…nunca me quis crer em coincidências.

…E ainda dizem que a sabedoria trás felicidade. Deixem-me na ignorância, se faz favor!