sábado, 3 de março de 2012

Um quadro (im)perfeito

Quis pintar um quadro perfeito.

Escolhi a tela, com tempo e com cuidado.

Escrevia a lápis e polia o bico com frequência: cada traço teria que ser exemplar!

Usava folha de rascunho e só depois, com papel vegetal, decalcava os feitos para a tela.

Fui desenhando, devagar.
Fui construindo uma encenação pensada. Cuidada. Bem calculada.

E assim foi, durante algum tempo...

Mas sou humana. Descuidei-me.

Justamente quando me preparava para lhe dar cor.
Para me comprometer.
Quando peguei no pincel para demarcar com tinta os traços que há meses esboçava...

O vento.
A mudança.
A imprevisibilidade.

É...não podemos controlar tudo.
E há sempre uma janela aberta!

...E assim o vento entrou.
De rompante, derramou uma lata de tinta na tela que era pra ser perfeita.

Entrei em pânico.
Fiquei em choque!

Chorei. Gritei. Rasguei-me por dentro e por fora.
Enfureci-me. Enchi-me de raiva e de rancor!
...

E a tela continuava ali, em cima da mesa. Esquecida.
A tinta seca. Os traços-que-eram-para-ser-perfeitos, sumidos. Apareciam só aqui ou ali, onde a tinta não havia chegado.

Os pincéis e os lápis-caros e as tintas e o papel vegetal, abandonados.

E depois. Só depois. Parei. E reparei.
Nada acontece por acaso.

...

Ainda atordoada, frustrada, voltei e pegar no pincel.

Revolvi a tinta ressequida. Pintei por cima. Sem ensaios. Sem projetos.
Adicionei cores ao acaso. Misturei tudo.

E, sem querer, fui dando forma áquele caos.

Não era um quadro de exposição.
Foi-se tornando uma coisa só minha, que ninguém entendia. E ainda bem!

Era um quadro confuso. Revolto. Livre.

De luta e de coragem.
De fé e de vontade. Sem regras. Sem propósito. Sem caminhos traçados.

Era um quadro de alma. Bravo. Doce. Autêntico.

Era um quadro de amor.

domingo, 25 de dezembro de 2011

25 de Dezembro

Nunca se esquece este dia.
E apesar de não ter necessariamente que ser um dia inesquecível, é-o, quase sempre.

E no fim de contas, não fizemos nada de especial; não batemos nenhum record mundial, nem fizemos a nossa viagem de sonho. Na verdade, o mais provavel é que nem tenhamos descalçado as pantufas.

Não é preciso ir longe ou querer em grande para se ter tudo o que se precisa.

...O dia de Natal pode repetir-se, refazer-se ano-após-ano, ser sempre igual, que a gente não esquece nenhum.

E, afinal, o que fica retratado na memória são as mesas fartas de sorrisos, os sofás superlotados de calor e de carinho, os fatos-de-pai-natal e os corações e os olhos e o corpo dos miúdos aos pulos, desesperados por rasgar embrulhos!

Não me lembro em que Natal recebi aquele relógio caro que tanto queria, nem do Santo-Natal em que a minha avó não deu bronca com a ementa...mas lembro-me ao pormenor das coisas mais banais, e é dessas que tenho saudades.

É exactamente por ser uma data tão inesquecível que o Natal tantas vezes se torna uma data tão detestável.

...O tempo altera as circunstâncias, mas altera sobretudo as pessoas e as suas vontades.

O tempo seca as flores. Leva-nos a juventude e a vida de entes-queridos.
É...O tempo tira. Mas também dá. E, às vezes, dá a dobrar.
Traz-nos novos sonhos. Novos anseios. Novos amores...novas vidas!

O problema não é o tempo. O problema é o que as pessoas escolhem fazer com ele.

O problema são as pessoas que preferem coleccionar cólera. Rancor. Tristeza. Penitência.

Eu prefiro coleccionar e fabricar recordações felizes.
E é por isso que neste Natal não me saem da cabeça o sorriso dos meus avós, os gritos dos miúdos pela casa, as aparições do pai-natal, o aconchego da lareira...

Porque não pude acumular recordações felizes, hoje recordei, triste e repetidamente, a alegria e a união que o tempo e as pessoas levaram.

Às vezes a vida também é feita de recordações felizes.
E ao menos essas já ninguém mas tira!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Esperei-te

Esperei-te na noite.

Mesmo de peito vazio. De olhos borrados e lágrimas secas, desfeitas no peito.

Esperei-te não para te abraçar, te amar e me perder em ti, como desejo.

Esperei-te foi para te ver rasgar a noite de desespero!
Para sentir o tremor na tua voz e no teu peito.
Para afastar à bruta o teu abraço e sentir, já sem querer, o teu perfume no ar.

Esperei-te para ler loucura no teu olhar.
Para te ouvir falar a chorar sobre os momentos que não consigo esquecer.

Esperei por um gesto que me dissesse o fundo de ti. Queria saber ao certo quem és!...

Sabendo que não vinhas esperei-te...para te ver morrer de amor por mim.

E tu, que sabes tanto de mim, que sabes que me afasto do mundo quando mais dele preciso...não vieste.

...E abandonas-me dizendo que lutas por mim.

sábado, 9 de julho de 2011

Não vás para onde não te possa seguir.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Alegria & Felicidade

"A felicidade está para a alegria como uma lâmpada eléctrica está para o sol. A felicidade tem sempre um objecto, é-se feliz por alguma coisa, é um sentimento cuja existência depende do exterior. A alegria, pelo contrário, não tem objecto. Possui-nos sem qualquer razão aparente, no seu ser assemelha-se ao sol, arde graças à combustão do seu próprio coração."

sábado, 30 de outubro de 2010

só Tu

Chove.
E chove cá dentro, como lá fora.

Ouve-se o vento. Só.
A televisão está desligada, os livros dispostos na estante.

Coloco uma música, baixinho.
Calço as meias mais quentes e pego numa caneca de chá, que esfumaça pelo quarto.

Aconchego-me em mim mesma.
Perdida. Esquecida. Mas mais perto de mim.

Envolvo-me. Revolvo-me.
Encolho-me, pra me sentir livre.

Fecho os olhos. Penso em ti. Em como me prendi.

Tremo.
Se me faltares, falta-me o chão.
E temo.

Não planeei isto. Não escolhi amar-te. Aconteceu.
Foi de repente. Ou então não.
Acho que esperei por ti a vida inteira.

Imaginei-te, ainda antes de te conhecer.
Desenhei-te as qualidades. Escolhi-te os defeitos.
Eras tu. Sempre foste tu.

Por isso mesmo, não te consegui largar.
Risquei tudo. Mudei de planos. Mudei de vida. Quis escrever de novo.

Compensaste o risco. Cada dia. Cada minuto. Cada sorriso.

Dei-te a mão. Dei-te o corpo. Dei-te a alma. Dei-te tudo.
E tu devolves-me. Constróis-me. Todos os dias.
Mais brilhante, mais inteira, mais gigante.

E todos os dias, para poder voar, prendo-me mais um pouco.
Eu, que sempre me quis tão independente!

E isso assusta-me, sabes?
Destruíste-me as muralhas. Despiste-me as armaduras. Desarmaste-me.

Cuidaste de mim. E eu gostei.
Demasiado...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Como eu e tu.

Somos o avesso um do outro: iguais por fora, o contrário por dentro. Tu proteges-me, acalmas-me, ouves-me e ajudas-me a parar. Eu puxo por ti, sacudo-te e ajudo-te a avançar.

Como duas metades teimosas.