terça-feira, 9 de junho de 2009

Arco-Íris: ser ou não ser?

Hoje disseram-me umas verdades duras de roer.

Há coisas que a gente admira uma vida inteira, mas nunca se lembra de pensar sobre elas. Não tinha noção do quanto apreciava o arco-íris, até que hoje a professora de Técnica Vocal resolveu, já nem me lembro bem porquê, desfazer a crença de que aquele fenómeno se devia, se não a artes mágicas, então, no mínimo, a uma qualquer obra divina.

Não que alimentasse o sonho de desencantar um pote com moedas de ouro no final do arco-íris, mas há simplesmente coisas que uma pessoa prefere não saber!

Explicava ela, muito científica, que uma qualquer característica acústica ou harmónica ou whatever – nunca me hei-de familiarizar com estes termos - é como o arco-íris: pode ver-se mas, na realidade, não existe!

Fiquei de queixo caído, palavra!

Pode até ser burrice, mas estudei Humanidades, e à parte das áreas em que me inteirei por mera curiosidade, estas coisas da física são ainda – e temo que continuem a ser - um mundo por descobrir. Enquanto falava da impossibilidade de os cães o verem, já que os pobres coitados vêem a preto e branco – ao menos isso não me chocou, o mundo animal sempre me interessou - rematou com uma explicação relativa a um fenómeno óptico só observado pelos humanos, qualquer coisa relacionada com a dispersão da luz do sol que penetra numa gota de água e reflecte as cores num determinado ângulo, que também só poderão ser observadas a partir de uma determinada posição geográfica. Uff…!

É preciso muita coincidência!

E eu que estou sempre no mundo da lua, tinha que estar atenta justamente nesse instante.

Revejo-me agora naquelas pobres crianças cujos pais desde cedo teimam em explicar-lhes que o Pai Natal não existe coisa nenhuma, que isso é coisa para bebés! Pobres coitadas…

Eu cá recebi o Pai Natal lá em casa tantos anos quantos possível. Na altura ainda não se tinham lembrado de comercializar os fatos-de-pai-natal, pelo que o velhinho se fazia sempre apresentar com vestes que em muito se pareciam com mantas velhas. Mas eu reconhecia-o sempre! E com o misto de ansiedade e nervosismo que o momento suscitava, nunca me questionava porque é que nessa noite o meu avô ia sempre deitar-se mais cedo…e chegava precisamente meia dúzia de minutos depois do velho das barbas ter saído.

Como digo…nunca me quis crer em coincidências.

…E ainda dizem que a sabedoria trás felicidade. Deixem-me na ignorância, se faz favor!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A quoi ça sert, l’amour ?



A quoi ça sert, l’amour ?
On raconte toujours
Des histoires insensées
A quoi ça sert d’aimer ?
L’amour ne s’explique pas !
C’est une chose comme ça !
Qui vient on ne sait d’où
Et vous prend tout à coup.
Moi, j’ai entendu dire
Que l’amour fait souffrir,
Que l’amour fait pleurer,
A quoi ça sert d’aimer ?
L’amour, ça sert à quoi ?
A nous donner d’la joie
Avec des larmes aux yeux…
C’est triste et merveilleux !
Pourtant on dit souvent
Que l’amour est décevant
Qu’il y a un sur deux
Qui n’est jamais heureux…
Même quand on l’a perdu
L’amour qu’on a connu
Vous laisse un gout du miel -
L’amour c’est éternel !
Tout ça c’est très joli,
Mais quand tout est fini
Il ne vous reste rien
Qu’un immense chagrin…
Tout ce qui maintenant
Te semble déchirant
Demain, sera pour toi
Un souvenir de joie !
En somme, si j’ai compris,
Sans amour dans la vie,
Sans ses joies, ses chagrins,
On a vécu pour rien ?
Mais oui! Regarde-moi !
A chaque fois j’y crois !
Et j’y croirait toujours…
Ça sert à ça l’amour !
Mais toi, tu es le dernier !
Mais toi’ tu es le premier !
Avant toi y avait rien
Avec toi je suis bien !
C’est toi que je voulais !
C’est toi qu’il me fallait !
Toi que j’aimerais toujours…
Ça sert à ça l’amour !

Édith Piaf

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Cativar

Para aqueles que ainda julgam que os livros infantis são apenas para crianças:
(…)
- Quem és tu? – Perguntou o principezinho – És bem bonita…
- Sou uma raposa – disse a raposa.
- Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho - Estou tão triste…
- Não posso ir brincar contigo – disse a raposa. – Ainda ninguém me cativou…
- Ah! Então, desculpa! – Disse o principezinho.Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- “Cativar” quer dizer o quê? (…)- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços”…
- Criar laços?
- Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. (...) Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…
(…)
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. (...)Por isso, às vezes aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus passos hão-de chamar-me para fora da toca, como música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para anda. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo.

- Se fazes favor… Cativa-me! – acabou finalmente por pedir.
- Eu bem gostava – respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos por descobrir e uma data de coisas para conhecer…
- Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa. – Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
- E tenho de fazer o quê? – disse o principezinho.
- Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas podes-te sentar cada dia um bocadinho mais perto…
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa - Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Ás quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… Precisamos de rituais.
(…)
E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora da despedida:
- Ai! – suspirou a raposa. – Ai que me vou pôr a chorar…
- A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar…
- Pois pedi – disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
- Pois vou – disse a raposa
-Então não ganhaste nada com isso!
- Ai ganhei sim senhor! – disse a raposa - Por causa da cor do trigo…
E acrescentou:
- Anda, vai ver as rosas outra vez. Vais entender que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho foi ver as rosas outra vez.
- Vocês não são nada parecidas como a minha rosa! Vocês ainda não são nada – disse-lhes ele – Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como a minha raposa era, uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e ela passou a ser única no mundo.
E as rosas ficaram bastante arreliadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias – insistiu o principezinho. – Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas, sozinha, a minha rosa é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.
(…)
- Adeus – despediu-se a raposa – Agora vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…
- O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já não se lembram desta verdade – disse a raposa. – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa…
- Eu sou responsável pela minha rosa… - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry